Num pequeno sítio de Salesópolis e que hoje está à venda, nasce o rio Tietê, bem próximo do mar, correndo para o interior, cumprindo diariamente o avanço histórico dos paulistas, conquistando os sertões, fundando cidades e alargando as fronteiras. Ele começa numa pedra bem pequena, na Serra do Mar, forma um laguinho, pouco mais do que uma poça, onde nadam patos e fuçam os leitões.
Daí sai um filete de água, que rola escondido no meio da relva, recebendo as águas que escorrem das montanhas que o cercam, formando um vale. Pouco mais abaixo já é um rio, ganha uma ponte na estrada de Paraibuna, recebe os primeiros afluentes, que engrossam as suas águas para a longa jornada de 1.300 quilômetros, traçando uma diagonal no território paulista, até o município de Itapura. Aqui, ele morre nas águas do Paraná... é quase um mar.
Correndo dia e noite ao longo dos quatro séculos da vida paulista, o Tietê é a história viva de São Paulo, do que aconteceu com Anchieta fundando a cidade, do que acontece e do que acontecerá dentro dos planos dos homens que governam. Foi o rio indomável que conduziu os índios agrilhoados para os canaviais incipientes; exterminou bandeirantes e exploradores. É o rio domado pelo homem, depositário de esgotos, de lixo e de mau cheiro.
São Paulo chamou-se Piratininga (peixe seco), dada a abundância de peixe do Tietê e seus afluentes. Quando ocorriam as enchentes, os peixes acabavam espalhados pelos campos, e secavam com o sol. Foi-se o tempo e hoje o Tietê é um rio seco de peixe. As gerações que ali se acumularam, atraídas pelo rio; as indústrias que ali cresceram sustentadas pelo rio, acabaram se voltando contra o rio, matando-o.
Hoje o rio Tietê não tem vida, não tem oxigênio.
(In: O Estado de S. Paulo, janeiro de 1974.)
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